Quando as coisas ocupam o lugar errado






É assustador perceber como o mundo tem influenciado os pensamentos e as atitudes de muitos cristãos. Temos vivido em uma época em que novelas, colegas de trabalho, tendências, redes sociais e tantas outras vozes ao nosso redor nos dizem, o tempo todo, o que é certo, bonito, desejável e aceitável.

E, pouco a pouco, aquilo que ouvimos repetidamente vai entrando em nossos corações.

A cultura ao nosso redor nos ensina como devemos nos vestir, como deve ser nossa casa, como conduzir nossa família, como administrar nossos negócios, como educar nossos filhos, como devemos nos comportar e até mesmo o que precisamos possuir para sermos considerados bem-sucedidos.

E talvez o mais assustador seja perceber que, muitas vezes, já nem questionamos essas coisas. Apenas seguimos.

O mundo apresenta seus padrões e nós os absorvemos quase sem perceber.

Mas será que ser cristão significa simplesmente trocar alguns hábitos do mundo por hábitos religiosos? Será que o padrão de Deus se resume a uma lista de coisas que podemos ou não podemos fazer?

Creio que é algo muito mais profundo.

A questão não é apenas o que estamos fazendo, mas quem está formando nossos desejos, nossos valores e nossas escolhas.

Porque eu posso me vestir de maneira considerada “cristã” e ainda ter um coração completamente governado pela necessidade de aprovação. Posso ter uma família aparentemente perfeita e estar buscando, acima de tudo, o reconhecimento das pessoas. Posso possuir pouco ou muito dinheiro e, em ambos os casos, fazer dele o centro da minha vida.

E aqui está algo que precisamos entender: não é o mundo que deve determinar o valor das coisas para nós.

Não há pecado em apreciar a beleza. Não há pecado em gostar de roupas bonitas, de uma casa agradável, de coisas bem-feitas ou de desfrutar aquilo que Deus nos permite ter. O problema começa quando essas coisas deixam de ser apenas coisas e passam a ocupar um lugar que pertence somente ao Senhor.

A moda pode ser apenas uma roupa.

Uma casa bonita pode ser apenas uma casa bonita.

Um carro pode ser apenas um meio de transporte.

Dinheiro pode ser apenas um recurso.

Mas qualquer uma dessas coisas pode se transformar em um senhor quando nosso coração passa a depender delas para encontrar valor, identidade ou satisfação.

É por isso que precisamos renovar a nossa mente e deixar de ser tão facilmente moldados por este século. Não fomos chamados para viver isolados do mundo, mas para viver nele sem permitir que ele determine quem somos.

Entre seguir as novidades do século e seguir as Escrituras, precisamos lembrar qual delas permanece.

Os tempos mudam. Os costumes mudam. A moda muda. Os conceitos mudam. Aquilo que ontem era considerado absurdo hoje pode ser considerado normal.

Mas Deus não muda.

E Seus princípios não precisam ser atualizados para acompanhar cada nova tendência cultural.

Filhos de Deus não são aqueles que simplesmente conseguem se adaptar melhor ao ambiente em que vivem. São aqueles que aprendem a ser guiados pelo Espírito de Deus.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja: “Isso é permitido?”

Talvez seja: “Por que eu quero isso?”

Por que quero essa roupa?

Por que quero esse carro?

Por que quero essa casa?

Por que preciso ser reconhecida?

Por que quero tanto parecer bem-sucedida?

Por que preciso que as pessoas admirem minha família, minha aparência ou aquilo que possuo?

O problema nem sempre está naquilo que desejamos. Às vezes, está na razão pela qual desejamos.

Precisamos parar e fazer uma avaliação sincera do nosso próprio coração.

Será que minha inclinação tem sido me enquadrar naquilo que o mundo ao meu redor espera de mim — dinheiro, sucesso, roupas da moda, carro, fama, popularidade, poder, aparência?

Ou minhas escolhas continuam sendo conduzidas por um desejo maior: agradar ao meu Criador e viver de acordo com aquilo que Ele estabeleceu?

Talvez o verdadeiro desafio para nós, cristãos, não seja simplesmente deixar de gostar das coisas do mundo.

Talvez seja aprender a gostar das coisas deste mundo sem pertencer a elas.

Usar sem ser usada.

Ter sem ser possuída.

Apreciar sem idolatrar.

Cuidar da aparência sem fazer dela a nossa identidade.

Desfrutar das coisas boas que Deus nos permite ter sem esquecer que elas continuam sendo apenas coisas.

Porque, no fim, não é a simplicidade exterior que prova que um coração pertence a Deus, assim como não é a abundância exterior que prova que ele pertence ao mundo.

Deus não está interessado apenas naquilo que aparece diante dos olhos. Ele olha para o coração.

E é ali que a verdadeira batalha acontece.

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